De cima de um murro julgamos ver o mundo mas para vivê-lo temos de ter os pés assentes no chão…
A vida persegue-nos até nos encurralar, espezinhar e nos maltratar… Expurgando-nos assim do orgulho, da soberba, da segurança e até mesmo do sorriso. Estes sãos os momentos quando nos sentimos perdidos ou que nos perdemos. Como é possível alguém se perder quando o caminho é tão rectilíneo, tão certo e tão bem delineado? Estúpido, não? Mas a verdade é que é mais fácil andar perdidos que na direcção certa. Tão fatal com a morte.
Vi-te nascer… Vi-te lutar pela tua vida… Vi-te crescer… estive sempre lá…
Lutei por ti mesmo antes dos teus pulmões se encherem…
Dei tudo por ti… meu amor… minha vida… minhas lágrimas… meu suor… meu sangue… minha alma…
Deixei vergarem-me… Deixei corromperem os meus princípios e valores… Deixei-me levar… por esperança…
Porque tu vales tudo… tudo…
Mas agora é tempo de cresceres uns tempos sozinha… Ensinei-te tudo que consegui neste tempo… Mas vais ter de ser tu a viver… para um dia perceberes quem de facto te ama e está sempre cá por ti…
Nunca te esquecerei… levo-te dentro de mim até à morte… Mesmo depois estarei sempre por ti… mesmo depois…
Napoleão tinha razão quando disse “que nesta vida somos reis ou peões”. Sê a minha rainha…
Volta para mim no fim deste teu caminho… Fico à tua espera… Estarei sempre por cá, por ti…
A humildade não é algo que nasça connosco, é um processo de auto-conhecimento; como se nos colocássemos do avesso e nos sacudissem de toda a obsequente e mórbida altivez exortada pelo nosso competitivo instinto animal. Talvez seja mesmo um dos processos mais dolorosos pelo qual um ser humano passa.
Quebram-se dogmas, acumulam-se desilusões e, pior, percebemos quão insignificante é a nossa carne! Contudo, percebemos que do pensamento nasce uma ideia, de uma ideia brotam correntes e das correntes incorre a diferença, aquela diferença que ansiamos fazer. Umas vezes na vida de pessoas que amamos, outras na vida de alguns e para alguns na vida de todos. É aqui que a nossa carne toma significado.
É da humildade que se extrai a simplicidade e o significado da vida. Então, porque é que custa tanto obtê-la?
Pela vida tentam-se evitar chuvas, aguaceiros, temporais e, mais que tudo, dilúvios.
Parece que uma savana árida é mais aprazível do que uma verdejante floresta tropical. Trocam-se leopardos por escorpiões, primatas por dromedários e tucanos por abutres. Todavia, nunca escaparemos às cobras. Elas existem até nos locais mais inóspitos, sempre camufladas à espera do momento certo para soltarem o seu veneno em nós ou para nos esmagarem. Se nada fizermos somos engolidos vivos e acabaremos em seus sucos gástricos…
Ainda assim, alguns preferem ter um amplo horizonte, onde assumem que conseguem ver os perigos, a direcção para onde caminham e poucas e curtas tempestades. Outros não têm possibilidade de escolha, vão para onde a vida os levar, enquanto poucos não trocam a floresta por nada. Prefiro um local abastado de alimentos, cheio de animais exóticos coloridos, onde cada batalha é um passo em frente e onde chove com abundância… A floresta é linda e perigosa!
As tempestades são mais que necessárias. O vento leva os nossos mui belos ornamentos, enquanto a chuva extingue o volume do cabelo, cola as roupas ao corpo e lava-nos da cosmética com a qual nos cobrimos. A cada tempestade descobrimos um pouco mais de quem nós somos, um pouco mais de quem vai a nosso lado e os locais nos quais podemos confiar.
As tempestades ensinam-nos a sobreviver, a ser mais e melhor, enquanto a chuva… a chuva acompanha-nos… Porque chorar à chuva é não chorar sozinho, o mundo chora connosco…
Dão-nos alma e atiram-nos de gaiatos para uma embarcação náutica com a esperança que passemos mais tempo atracados ao porto do que em mar alto. Nada pode ser mais absurdo e paralelamente tão mágico, é uma esperança parda.
Quando recebemos a notícia que vamos ser pais, o coração acelera vertiginosamente, quebrando o septo que o divide em busca da divina harmonização entre o sangue venoso e o arterial. Um coração unido mas que nos inquina a razão. É dele que nasce a obsessão totalitarista que autoritariamente nos passa a dominar por completo. Possuídos pelo “é tudo tão bom e maravilhoso” e do necessário para que tudo ocorra de acordo, abstraímo-nos de todas as variáveis que nunca iremos controlar. Sejamos realistas, tem tudo para dar errado e não existe qualquer possibilidade de dar certo! Porque dar certo no coração de um pai é o nosso filho nunca sofrer, vivendo em absoluta felicidade e realização.
Tenho dúvidas, muitas dúvidas. Dir-me-ão “Toda a gente as tem”, mas o que é que as dúvidas dos outros têm a ver com as minhas - perguntarei de seguida. Querem dizer-me que é normal? Sim, eu sei que é, embora estas dúvidas sejam tormentas que nos atrasam e por vezes nos paralisam.
As dúvidas são árvore caduca. Com o passar do tempo habituamo-nos a que as estações as levem e as tragam de volta. Por ventura assim, o Outono seja a nossa estação de eleição. Temperatura amena, sol quente na pele morena e folhas secas a caírem à medida que passeamos pelas alamedas da vida ornamentadas de calçada Portuguesa. Já dei por mim indeciso entre olhar para o chão, para o céu ou para a cúpula das árvores.
Movemo-nos por entre os nossos hábitos mecânicos do cimo do nosso pedestal enquanto executamos o dia-a-dia. Entramos no supermercado e loucos falamos com as prateleiras que nos servem carne fresca, acabada de cortar.
- Tem bife da vazia? É fresco e tenro?
- Sim, tenho esta peça. É para estufar?
- Queria uns 6 não muito grossos e com pouca gordura…
O afiar das facas incomoda-nos, a outra prateleira falante destroça em fatias o osso das costeletas com ruidosa violência, enquanto atende o nosso humano parceiro de supermercado. Ficamos descansados pois trata-se de uma loucura colectiva e subserviente às nossas vontades.
- É só?
- Obrigado!
Avançamos para a caixa e o código Morse da conta acaba com a notícia derradeira impressa, que se perpetua com 4 dígitos e um OK. À porta, está uma gélida e amarga senhora de cadeira de rodas com a mão estendida e lábios cerrados. Sua expressão são apenas olhares dirigidos embora vazios. Nem a esperança mora em tão inóspita alma…
Nasci em 1983, no século XX. Cresci em frente à televisão e na rua a andar de bicicleta com os meus primos. Nos desenhos animados encontrei a fantasia, nos filmes a força dos heróis e nos documentários o sonho de que a ciência é o caminho comum que dilui a ambivalência da nossa condição humana.
Um dia quis ser astronauta, sentir a ausência de gravidade, descobrir, ir mais longe do que a imaginação. Um dia quis ser piloto de avião a jacto, ultrapassar os limites da velocidade e sentir a liberdade da vertigem. Um dia quis ser pintor para imortalizar o que ia dentro de mim em cores de carácter vincado. Um dia quis ser escritor, mudar o mundo com a Palavra arrancando o melhor de cada um de nós. Um dia quis ser engenheiro genético para curar o mundo. Um dia quis ser político para mudar o meu país, dar oportunidade para que cada um se transcenda em prol de todos nós. Um dia quis ser gestor, chefe… para ter dinheiro e poder demonstrando o meu valor. Um dia quis ser engenheiro de polímeros, diziam que era um emprego com saída. Um dia quis ser engenheiro informático… e sou…
"um choque inicial que o transforma em refém do Outro, esse Outro indomável que no psiquismo individual, dá simplesmente pelo nome de processo primário. O afecto inconsciente que não penetra somente o espírito, mas que, mais propriamente, o abre, é o estrangeiro dentro de casa, sempre esquecido e cujo espírito deve esquecer até o esquecimento para se poder assumir como dono de si mesmo"
— Ranciére, Jacques, [2003] O destino das imagens, Orfeu Negro, 2011: 173
Alguns posts comentam a actualidade económica, política e social. Outros são apenas deambulações sem sentido ou direcção. E por fim, alguns posts servem de catarse...
Fernando Pessoa explora trilhos que possam levar à felicidade através de seus heterónimos. Álvaro Campos em poucos versos descreve a minha matriz de vida:
"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."
Tabacaria, Álvaro de Campos