"

É Preciso Repensar a Nossa Vida

É preciso repensar a nossa vida. Repensar a cafeteira do café, de que nos servimos de manhã, e repensar uma grande parte do nosso lugar no universo. Talvez isso tenha a ver com a posição do escritor, que é uma posição universal, no lugar de Deus, acima da condição humana, a nomear as coisas para que elas existam. Para que elas possam existir… Isto tem a ver com o poeta, sobretudo, que é um demiurgo. Ou tem esse lado. Numa forma simples, essa maneira de redimensionar o mundo passa por um aspecto muito profundo, que não tem nada a ver com aquilo que existe à flor da pele. Tem a ver com uma experiência radical do mundo.
Por exemplo, com aquela que eu faço de vez em quando, que é passar três dias como se fosse cego. Por mais atento que se seja, há sempre coisas que nos escapam e que só podemos conhecer de outra maneira, através dos outros sentidos, que estão menos treinados… Reconhecer a casa através de outros sentidos, como o tacto, por exemplo. Isso é outra dimensão, dá outra profundidade. E a casa é sempre o centro e o sentido do mundo. A partir daí, da casa, percebe-se tudo. Tudo. O mundo todo.

"

— Al Berto, in “Entrevista à revista Ler (1989)”

Feliz Natal

Há coisas que se vão perdendo pela vida. Uma oportunidade aqui, um caminho ali… Nunca teremos tudo, já não somos crianças em que o encanto é tudo e a magia brota de tudo que é novo. Vive-se de “escolhas” baseadas em assumpções, queres e caprichos. 

Um embrulho ilumina os olhos, a proximidade tolhe a razão e o toque rebenta em excitação. Quantos de nós ainda sente assim? Quem é que ainda não perdeu a inocência e a ingenuidade? Vivemos de “o que interessa é a intenção” não por mal, mas porque já pouco nos encanta. Encanta-nos sermos mais e melhores. Se possível de todos que conhecemos. Status quo, sucesso, épicos planos e reverência. Isto enche-nos o ego e pelo ego é que vamos. Leva décadas a voltarmos a sermos crianças de novo. Isto eventualmente deve chegar quando somos avós e os nossos netos ficam assim perante uma prenda nossa. Aquele sorriso maroto é nosso.

Ensaio sobre a humildade - Reflexão

A humildade não é algo que nasça connosco, é um processo de auto-conhecimento; como se nos colocássemos do avesso e nos sacudissem de toda a obsequente e mórbida altivez exortada pelo nosso competitivo instinto animal. Talvez seja mesmo um dos processos mais dolorosos pelo qual um ser humano passa. 

Quebram-se dogmas, acumulam-se desilusões e, pior, percebemos quão insignificante é a nossa carne! Contudo, percebemos que do pensamento nasce uma ideia, de uma ideia brotam correntes e das correntes incorre a diferença, aquela diferença que ansiamos fazer. Umas vezes na vida de pessoas que amamos, outras na vida de alguns e para alguns na vida de todos. É aqui que a nossa carne toma significado.

É da humildade que se extrai a simplicidade e o significado da vida. Então, porque é que custa tanto obtê-la?

Primeiro post: Ensaio sobre a humildade - Em fuga

Tenho dúvidas…

Tenho dúvidas, muitas dúvidas. Dir-me-ão “Toda a gente as tem”, mas o que é que as dúvidas dos outros têm a ver com as minhas - perguntarei de seguida. Querem dizer-me que é normal? Sim, eu sei que é, embora estas dúvidas sejam tormentas que nos atrasam e por vezes nos paralisam.

As dúvidas são árvore caduca. Com o passar do tempo habituamo-nos a que as estações as levem e as tragam de volta. Por ventura assim, o Outono seja a nossa estação de eleição. Temperatura amena, sol quente na pele morena e folhas secas a caírem à medida que passeamos pelas alamedas da vida ornamentadas de calçada Portuguesa. Já dei por mim indeciso entre olhar para o chão, para o céu ou para a cúpula das árvores.

Ensaio sobre a humildade - Em fuga

Movemo-nos por entre os nossos hábitos mecânicos do cimo do nosso pedestal enquanto executamos o dia-a-dia. Entramos no supermercado e loucos falamos com as prateleiras que nos servem carne fresca, acabada de cortar. 

- Tem bife da vazia? É fresco e tenro?

- Sim, tenho esta peça. É para estufar?

- Queria uns 6 não muito grossos e com pouca gordura…

O afiar das facas incomoda-nos, a outra prateleira falante destroça em fatias o osso das costeletas com ruidosa violência, enquanto atende o nosso humano parceiro de supermercado. Ficamos descansados pois trata-se de uma loucura colectiva e subserviente às nossas vontades.

- É só?

- Obrigado!

Avançamos para a caixa e o código Morse da conta acaba com a notícia derradeira impressa, que se perpetua com 4 dígitos e um OK. À porta, está uma gélida e amarga senhora de cadeira de rodas com a mão estendida e lábios cerrados. Sua expressão são apenas olhares dirigidos embora vazios. Nem a esperança mora em tão inóspita alma…  

Ano Velho

Duas vezes por ano entro em profunda depressão. A primeira é no meu aniversário e a segunda é no final do ano. Não me considero uma pessoa deprimida, pois normalmente as minhas “depressões” duram umas horas, no máximo um dia, e com muito pouca frequência. Não é o caso das datas que assinalei. Nestas datas a depressão pode durar um pouco mais…

Sempre me perguntei pelo porquê destas depressões. É verdade que são datas de retrospecção e devido à minha ânsia e sede por mais, não são fáceis de gerir! Por mais que os nossos nos digam que estamos bem, que somos novos, que temos tudo e bem mais do que esperavam… Não adianta de nada! Pois nestas situações nunca me interessou a perspectiva dos outros sobre mim, mas sim a minha visão da minha realidade, ainda que errada, distorcida ou até mesmo desproporcional! Lamento por mim, mas quero sempre mais e melhor… A cada dia tenho de ganhar alguma coisa, senão, alguma coisa tem de mudar. Por mais que tente, ainda não consegui mudar este traço de personalidade. Metaforicamente, digo que nasci guerreiro Espartano! Sem luta, futuro e sonho, nada nesta vida me aquece.