A hipoteca de um pai
Dão-nos alma e atiram-nos de gaiatos para uma embarcação náutica com a esperança que passemos mais tempo atracados ao porto do que em mar alto. Nada pode ser mais absurdo e paralelamente tão mágico, é uma esperança parda.
Quando recebemos a notícia que vamos ser pais, o coração acelera vertiginosamente, quebrando o septo que o divide em busca da divina harmonização entre o sangue venoso e o arterial. Um coração unido mas que nos inquina a razão. É dele que nasce a obsessão totalitarista que autoritariamente nos passa a dominar por completo. Possuídos pelo “é tudo tão bom e maravilhoso” e do necessário para que tudo ocorra de acordo, abstraímo-nos de todas as variáveis que nunca iremos controlar. Sejamos realistas, tem tudo para dar errado e não existe qualquer possibilidade de dar certo! Porque dar certo no coração de um pai é o nosso filho nunca sofrer, vivendo em absoluta felicidade e realização.
Na gravidez, à mãe, é-lhe dada toda a atenção do mundo como se o mundo dependesse dela para continuar a girar. Entre os “que maravilhoso”, “deves estar nas nuvens” e “és mesmo uma mãe linda”, dizem-lhe “estás de esperanças”. Esta é a prerrogativa mais verdadeira que podemos ouvir! Esperanças… Esperanças… Sim, vivemos de esperanças, mas não só durante a gravidez… Podia facilmente afirmar que filho é sinónimo de esperança, pois passamos a viver com um revólver apontado à cabeça, carregado apenas com uma bala à espera que ao fim de cada rotação o sentimento que nos invade seja de alívio.
Porém, estando tão fora de nós e cativos da rotina, não enxergamos que o objectivo é ser baleado o menor número de vezes possível! Não nos enganemos, o revólver tem mais que uma bala e vamos ser baleados, ficando apenas por saber o calibre e a arma de fogo. Cada mentira, cada caminho tortuoso, cada desencanto, cada decepção… atinge-nos cobardemente pois nunca estamos à espera.
A educação de um filho não deve ser focada nele, mas em reduzir o número de vezes que somos alvejados. Sim, educar não deve ser um comportamento altruísta mas o mais egoísta de todos. Dizer “não” custa hoje, o simples “sim” custará muito caro amanhã. Acredito que só assim o nosso filho vai agarrar na mochila, carregando-a com a lancheira cheia de amor; com o regulamento interno da escola repleto de princípios e valores; com o estojo de lápis, borracha, esquadro e compasso, que usará para desenhar a sua vida; com cadernos de apontamentos repletos dos nossos ensinamentos; com livros de exercícios onde treina a vida; com os sábios livros que vão alargar os seus horizontes; e no fundo fará um minúsculo furo por onde deixará cair tudo o que não importa carregar por esta vida fora. Espero que seja por esse furo que todos os erros que cometemos como pais na sua educação desapareçam…
Daí, muitas vezes me perguntar se sou um bom pai. Se faço tudo que está ao meu alcance e o que posso mais fazer para que o futuro da minha filha seja simplesmente o mais apraz possível. Parece-me sempre que a esperança fica mais longe e opaca ou é apenas a tenaz miopia dos anos que não me larga…
Com Eça de Queiroz, n’Os Maias, interiorizei a ideia de deixar uma gorda e utilitária herança à minha filha: educação. Na educação dela é onde aposto toda a minha vida. Só com uma educação privilegiada as variáveis que não controlamos terão um efeito mais brando na vida de nossos filhos. Porque ter filhos é assumir um empréstimo de profundo amor para vida, onde a hipoteca é a nossa alma…