Não! Não me calarão…

Nasci em 1983, no século XX. Cresci em frente à televisão e na rua a andar de bicicleta com os meus primos. Nos desenhos animados encontrei a fantasia, nos filmes a força dos heróis e nos documentários o sonho de que a ciência é o caminho comum que dilui a ambivalência da nossa condição humana. 

Um dia quis ser astronauta, sentir a ausência de gravidade, descobrir, ir mais longe do que a imaginação. Um dia quis ser piloto de avião a jacto, ultrapassar os limites da velocidade e sentir a liberdade da vertigem. Um dia quis ser pintor para imortalizar o que ia dentro de mim em cores de carácter vincado. Um dia quis ser escritor, mudar o mundo com a Palavra arrancando o melhor de cada um de nós. Um dia quis ser engenheiro genético para curar o mundo. Um dia quis ser político para mudar o meu país, dar oportunidade para que cada um se transcenda em prol de todos nós. Um dia quis ser gestor, chefe… para ter dinheiro e poder demonstrando o meu valor. Um dia quis ser engenheiro de polímeros, diziam que era um emprego com saída. Um dia quis ser engenheiro informático… e sou… 

Recordo-me com 3 a 4 anos na minha casa velha, assim a chamávamos, de subir à caixa do contador da água que estava no muro da frente da casa e olhar para o céu sem que houvesse amanhã. Por vezes ficava tonto de ver as nuvens passarem por cima de mim… Não me recordo no que pensava, mas saía de lá com uma vontade avassaladora de viver e vencer… Era livre, não havia medos nem receios, apenas um céu tão grande como a minha imaginação, sem a lassidão do passado ou as amarras do futuro curto e piedoso que hoje nos condena. 

Eu nasci neste século. No século da abundância. No século em que chegámos à lua. No século da comunicação e mobilidade universal. No século da democratização da ciência, educação, cultura e saúde. No século da liberdade de expressão. No século onde a esmola se transformou em solidariedade social. No século da tolerância e da democracia, onde cada um tem uma voz independentemente da sua raça, do seu sexo, da sua religião… No século do sonho fantástico proveniente da ciência e da consciência global que nos eleva enquanto Homem…

Contudo, também nasci no século do Holocausto, da Grande Depressão, das ditaduras, da divisão do mundo em dois, da divisão do mundo por países segundo o seu desenvolvimento, da venda massiva de armas, da bomba atómica, das guerras por via de bombardeamentos e danos colaterais… 

Sim, eu nasci no século onde o Homem se deparou com o seu pior mas também com o seu melhor… Virei este século, com esperança de que meus filhos me enterrem felizes…

Hoje, olho para o meu país, olho para a Europa e para o mundo. Vejo que a perversão do dinheiro nos está a fazer perder tudo o que de bom encontrámos no século em que eu nasci. A democracia faz vénia ao capital. A liberdade de expressão é apenas um cliché. A liberdade, a nossa liberdade, ganhou raízes profundas na comodidade… Será que temos de ser vencidos, escravizados e pilhados para nos libertarmos outra vez? Não, não vamos por aí… Mas se formos, que o céu, o meu céu, nos inunde da vida, força e vitória que um dia existiu no século no qual nasci… 

SOPA, PIPA, ACTA, liberdade de expressão, crise financeira, condicionamento da informação, guerras económicas, deturpação da democracia no parlamento europeu, etc., são apenas algumas das duras e concretas batalhas que podemos travar, juntos! Um símbolo, uma ideia, só se materializam com pessoas a acreditarem e essas pessoas são e serão o baluarte da consciência do século XXI. Podem vencer-nos? Não, porque não nos calarão!!! No século em que nascemos, a voz é a carótida que não pode ser amputada.

Vou viver este século sem o acabar! Neste século quero ser povo, voz e a diferença entre a escravidão e a liberdade!