O luto

Estou para escrever este texto há um tempo considerável. Digo este, porque já escrevi vários, mas eram de tal forma violentos e pesados que decidi apagá-los, como gostaria de um dia apagar da minha memória o que é o luto… Aquele luto que não passa nem com o nojo nem com indulgência. Escrevo-vos sobre o luto por aqueles que deixaram esta vida sem nunca chegarem a vivê-la. 

Friamente dizemos “para morrer só é preciso estar vivo”. Verdade insofismável e empírica. Faz parte da condição humana, é o mais eficaz mecanismo de renovação e até mesmo de inovação. Mas isto diz pouco a quem fica sem alguém. É-nos ceifada a possibilidade de viver esse alguém! Não importa se é alguém com quem partilhámos a nossa vida ou se é um bebé que nunca chegou a nascer! Era um nosso alguém. Uma das nossas pessoas. 

É triste, é mesmo muito triste. Haverá pior sentimento que um pai possa sentir? Morrer depois do seu filho? Nunca um pai deveria morrer depois do seu filho. Bate-nos uma tristeza profunda que se enraíza na alma conspurcando mente de raiva, injustiça, impotência, repulsa e auto-comiseração. É a revolta contra o anti-natura! É a mágoa de não conseguirmos proteger aqueles que dependem de nós, só de nós. É um amor que nasce com uma boa-nova e que abruptamente se transforma… em luto…

Trespassam-nos vilmente pelas costas, sem hesitação, em direcção ao miocárdio. Esvara-se o sangue que há em nós. Ficamos secos, embalsamados… O mundo tal como o conhecemos muda, eclipsa-se, perde a cor, o brilho e até mesmo o sentido. Este mundo fica irascível. É assolado pelas mais violentas tempestades e erupções sentimentais que transformam o seu fenótipo, conseguindo paulatinamente adulterar o seu genótipo. Este mundo somos nós, assim que a morte nos bate à porta, é para ele que invertemos. Daí em diante, não mais saímos verdadeiramente dele. A morte de um filho dá-nos esta condição…

Drogam-nos com medicamentos! Drogam-nos com racionalidade. Mas não conseguem arrancar a dor que nos devora por dentro. Não conseguem extinguir a raiva e a mágoa. Não conseguem, porque simplesmente não é justo, não é natural, não é aceitável, não é passível de ser compreendido… Há sempre “alguém” a culpar e a odiar. Seja Deus… Porque quando é alguém que não está na esfera da metafísica o sentimento toma proporções animalescas.

Somos possuídos pelo mais abominável demónio… Demónio este que não mais nos deixará em paz. Não adianta que seja feita “justiça”. Essa justiça de pouco vale, pois pouco conforto nos trás, mas quando não existe enaltece os piores sentimentos que um ser humano pode levar consigo. Este demónio é impiedoso com o objecto de nossa raiva mas também connosco, pois ele vive nas nossas memórias.

Esquecer, como? Já não somos quem éramos. Endurecemos! Ficamos mais amargos! Racionais! Em perpétuo litígio com a vida… Não há volta atrás, só é possível seguir em frente e rogar à Vida que justiça seja feita em todas as suas dimensões, mas que não sejamos mais atormentados com situação semelhante. 

Só conheço um amor incondicional, o amor de pai. Garanto-vos que este amor nem a morte consegue levar. Fica… Fica dentro de nós para sempre, à espera que a morte um dia nos leve com ele.  

Os sentimentos até podem mudar, mas as memórias não…

Música composta por Joaquín Rodrigo, Concierto de Aranjuez, em resposta ao aborto espontâneo do seu primeiro filho…