Asfixia local = Castração intelectual

Quando vim do Porto em direcção a Lisboa, para além de severos motivos de carácter pessoal, existia algo no Porto que me asfixiava! Na altura pensava que era devido ao desafio profissional que o Porto me apresentava, cheguei a pensar que era a vida “pequena” que levava, depois pensei que era a cidade em si que era pequena demais para mim…

Tinha iniciado os meus 26 anos. Já era professor universitário, já tinha empregos - ainda que não muito remunerados - muito interessantes e o meu prestígio residia no Porto. Muitas pessoas olhavam para mim com factual reverência, pois comecei do -2 (menos dois) e com 26 anos atingira uma posição e um conhecimento com esforço próprio, não habitual para uma pessoa “main stream” e sem ajuda de terceiros.

Vim de uma família pobre e sem ligações políticas. Educaram-me para não sonhar muito alto, pois a vida é difícil per si, e quanto maior o sonho maior a queda. Recordo-me de minha Mãe me dizer pelos meus 15 anos, sem qualquer altivez, para dar um passo de cada vez, para ter calma, que a vida nem sempre é como sonhamos… Nessa altura ouvia isto e dizia para mim mesmo: “Um dia vais-te orgulhar de mim não só pela pessoa que sou mas onde estou”. Quem me tira o sonho, o desafio e a luta suga a vida de mim!

Em qualquer discussão a minha visão vencia, sendo que muitas vezes estava absolutamente errada, mas a minha argumentação era difícil de desmantelar. Passava jantares a explicar o que fazia da vida e a explicar como cá cheguei por mérito próprio no contexto do Porto, sem qualquer alavanca advinda da minha família ou de outro qualquer grupo. Fartava-me de explicar o meu caminho e as lutas que venci. Cheguei àquela posição porque era inegável para as pessoas com quem interagia que era diferente e acrescentava valor ao que desejavam. 

Comecei como assistente de atendimento do call center da Vodafone, DTI Vodafone, CESAE AEP como consultor especialista, vários projectos como freelancer, estudava em simultâneo, fui escolhido como Microsoft Student Partner… Em cima disto mantive uma família desde os meus 18 anos, constituída por uma mulher que estudava e uma filha que actualmente tem 10 anos. Dei o litro! Dei o meu suor e sangue!!! Lutei por tudo aquilo que me tinha sido transmitido por minha Mãe: princípios, valores e educação. Nunca nos desviarmos daquilo que importa na vida: família, Deus e pátria. 

Quando estava de saída da faculdade tive inúmeras propostas de trabalho, principalmente para a Europa, com ordenados elevados e prestigiantes postos que não eram habituais para alguém de tão tenra idade. Todos eles iam de encontro ao que sempre me motivou profissionalmente: conhecimento! Mas iam contra tudo aquilo que me ensinaram desde criança: família em primeiro lugar.

Naturalmente, é muito complicado para alguém ser assediado por grandes players mundiais e ficar no Porto porque era lá que a minha família residia. Nesta altura sentia-me completamente asfixiado e manietado pela vida que tinha assumido. Adorava de todo o meu coração toda a minha família e, na verdade, chegara aqui pelo sonho de lhes proporcionar uma vida melhor, pelo desafio de conseguir algo que para muitos seria impensável e porque era uma luta; não há luta que eu não entre para vencer. Recordo-me que um dia antes de aceitar casar-me com a minha ex-mulher, do seu pai me dizer que não era possível estudar, sustentar uma família e chegar a parte alguma. Era uma verdade incontestável e factual para o meu contexto. 

Consegui que a minha ex-mulher se formasse em enfermagem (o pior dos meus pecados até hoje), consegui criar a minha filha contra tudo e contra todos, levei às costas toda a minha família, estabeleci-me como o baluarte da família, estudei, trabalhei, chorei, suei, gritei, acordei com ódio do mundo, quase fui esmagado… Acreditem, tarefa herculana que hoje não sei se estaria à altura de a repetir! 

Tudo isto, na altura, era o que eu poderia apontar como factores decisivos para a minha deslocação para Lisboa, contudo, não passou minimamente por aqui. Antes pelo contrário. Tudo pelo qual passara era um combustível fortemente aditivado, que me fazia, a cada dia, ir ainda mais longe. Por este motivo e outros pessoais, não era de todo mau, apenas causava alguma erosão na minha ambição e na minha força de tentar ir mais além. 

Como podem ver, fui forçado a crescer. Muitas vezes considerado prematuro, precoce! Na verdade, desde os meus 5-6 anos isso acontece. Com 6 anos já via o telejornal da RTP 1, porque era o que mais me interessava, com 8 anos já via dois telejornais, RTP 1 e RTP2, por dia, e discutia com todos aqueles que considerava interessante trocar umas bolas. Olhavam para mim com um puto de 8 anos apenas nos primeiros 2 minutos, depois entravam em modo de damage control.

Naturalmente, com este ritmo de vida, o Porto cada vez mais se me apresentava como uma cidade que já nada mais me tinha para oferecer, a não ser as pessoas que amava incondicionalmente. Os meus horizontes iam para além da Europa e dos EUA. Muito do que discutia com os meus círculos de amigos era óbvio para mim, no trabalho quase nada aprendia, chegava a casa e dificilmente tinha uma conversa que pudesse considerar inteligente (também não era a função deles estimularem o meu intelecto, mas sim estimularem o meu coração), passava a vida a falar do óbvio, como sempre se confirmou. 

Sentia-me asfixiado! Hoje sei que me estava a castrar intelectualmente.

Vim para Lisboa em vez de aceitar ir para os EUA, ou andar entre Lisboa e o Mundo. Tomei a decisão, decisão de rasgo, de vir para Lisboa trabalhar na Portugal Telecom, na Direcção Tecnológica do portal SAPO e para alguém que era considerado como brilhante arquitecto de software e muito exigente.

Passei por uma entrevista de 3 horas com quatro pessoas altamente qualificadas, que me faziam questões técnicas muito complexas. Saí da PT com a certeza que não ia entrar e disse à pessoa que lá me levou: “Não me ligues na próxima semana, pois eu tenho que pensar o que é que eu andei a fazer estes anos todos. Está claro para mim que estou muito aquém do que deveria saber”. Estava derrotado! Fora esmagado sem me ter sequer preparado para a entrevista. Mas ainda assim, o meu valor em fazer a diferença foi encontrado no meio de muitos “não sei, mas parece-me que é por […]?”. Cheguei a dizer na entrevista “mas o é isso […], é que pelo menos levo desta entrevista coisas para explorar”. Fui contratado, ligaram-me, salvo erro no dia seguinte, quando tinha dado ordens explicitas para não me ligarem, pois estava em período de reflexão. Não poderia, não está em mim não ir ao segundo round! Deitaram-me ao tapete no primeiro round, mas no segundo eles é que irão ao chão. 

Vim para Lisboa, pessoas novas, pessoas com muito para me ensinar, trabalho muito aliciante, sempre, mas sempre a aprender mais. Estudei mais no meu primeiro ano de trabalho que em todos os anos de liceu e faculdade juntos. Entrava às 10h e saía entre as 24h e 4h. Jantava todos os dias com o meu chefe a discutir sobre o futuro do projecto e implementações. Ele inundava-me de papers, e leitura técnica… perguntas… Eu lia, lia, lia… Ia todos os fim-de-semana ao Porto e a maioria das quartas-feiras à noite, sendo que voltava às 6:52h da quinta-feira seguinte. Fiz-lo por dois anos sem parar! Lutei, lutei, lutei!!! Lutei para libertar-me da asfixia que sentia no Porto, mas também para manter bem perto tudo o que de bom o Porto me dava. 

Não funcionou! O Porto já não era mais para mim. É a cidade que volto hoje de 15 em 15 dias. Tenho enorme orgulho em ser do Porto e em tudo o que o Porto me deu. Sem o Porto, talvez hoje não tivesse sequer metade do meu maior valor profissional que tenho hoje: raciocínio, visão 360º do negócio e espírito crítico. Adoro a minha cidade, adoração profunda. Inclusive, é lá que ainda dou aulas de Branding. Gostava de nunca deixar de o fazer, pois este é o meu contributo à cidade e às pessoas que me ajudaram a crescer. 

Mas não tenho dúvidas que o Porto me estava a castrar intelectualmente. Pelo seu ritmo, pelas pessoas (não quero dizer que as pessoas não são intelectualmente capazes, porque são, mas porque não estão tão expostas como a capital está), pelo desafio, etc… 

Hoje estou em Lisboa, posso afirmar que metade dos meus amigos e grande parte dos meus grandes amigos deslocam-se para fora de Portugal. Maioritariamente para Londres. Dizem-me sem parar que o meu mercado fora de Portugal é enorme, que o que eu faço é extremamente bem pago fora de Portugal, que ia crescer muito mais, até porque só tenho 28 anos… Os meus amigos querem o melhor para mim!

Lisboa, cada vez mais tem cheiro de Porto! A asfixia começa a crescer e para quando a castração intelectual? Estar em Lisboa é confortável pois estou a 2-3 horas do Porto, mas também começa a ser também pequena demais para mim… 

Família, Deus e Pátria! Se sair, onde fica este ensinamento? 

Até à eventual sensação de castração intelectual, vou tentar algo diferente do que fiz no Porto. Vou tentar que Lisboa e Portugal cresçam para não mais eu me sentir asfixiado…  

Até hoje ainda não cheguei, pessoal e profissionalmente, ao meu número mágico. Aquele que me fará “reformar”. Mas não vou parar até conseguir, pois posso não chegar à lua, mas de certo que vou tirar os pés do chão!!! 

Poeta Castrado, Não!

Serei tudo o que disserem

por inveja ou negação:

cabeçudo dromedário

fogueira de exibição

teorema corolário

poema de mão em mão

lãzudo publicitário

malabarista cabrão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!

Os que entendem como eu

as linhas com que me escrevo

reconhecem o que é meu

em tudo quanto lhes devo:

ternura como já disse

sempre que faço um poema;

saudade que se partisse

me alagaria de pena;

e também uma alegria

uma coragem serena

em renegada poesia

quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu

a força que tem um verso

reconhecem o que é seu

quando lhes mostro o reverso:

De fome já não se fala

- é tão vulgar que nos cansa -

mas que dizer de uma bala

num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história

- a morte é branda e letal -

mas que dizer da memória

de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser

o poema dia a dia?

- um bisturi a crescer

nas coxas de uma judia;

um filho que vai nascer

parido por asfixia?!

- Ah não me venham dizer

que é fonética a poesia !

Serei tudo o que disserem

por temor ou negação:

Demagogo mau profeta

falso médico ladrão

prostituta proxeneta

espoleta televisão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado, não!

in SANTOS, Ary dos. - Resumo. Lisboa, 1973.